ENTREVISTAS

 

Entrevista com Jorge Jaber (22/08/2008)

 

No Boletim desta semana, entrevistamos o ex-presidente e atual conselheiro consultivo da Associação Brasileira de Alcoolismo e Drogas (ABRAD), Jorge Jaber. Pós-graduado em Dependência Química pela Harvard Medical School (EUA) e com curso de MBA, ele é diretor geral da Clínica Jorge Jaber, localizada no Leblon, no Rio de Janeiro, e também presta atendimentos sociais comunitários na Barra da Tijuca. Durante uma conversa muito interessante e esclarecedora, Jorge Jaber contou sobre a importância do esporte na vida de um dependente químico e da questão dos convênios médicos que cobrem tratamentos para viciados

 

1. Como é lidar com a questão de atletas que são dependentes químicos?
Temos alguns diagnósticos ligados aos transtornos no uso de substância química e temos também diagnósticos referentes ao abuso de substâncias químicas. Em relação aos atletas, a questão se torna mais importante ainda. Há uma importância em chamar a atenção que esse diagnóstico deve ser também cuidado pelo especialista na área de dependência química.
O uso abusivo para um cidadão comum depende de uma “média de consumo” de álcool e substâncias químicas que são suportáveis pelo organismo. Mas, para um atleta, essa margem diminui. O atleta tem seu desempenho afetado pelo consumo de substâncias químicas numa quantidade até menor do que uma pessoa que não é atleta. Ele pode ter uma queda de desempenho, devido ao uso de substâncias químicas, e este é um dos itens que compõem o diagnóstico.
Um atleta jovem tem uma grande esperança em sua profissão. Nós sabemos que uma atleta profissional, aos 16 ou 17 anos, já se torna um expoente. Se esse atleta começa a ter uma queda no desempenho, fatalmente isso se transformará num fator de frustração. Isso pode, conseqüentemente, aumentar o consumo de drogas e agravar ainda mais o seu desempenho na atividade esportiva.
É necessária uma equipe multidisciplinar para lidar com esses casos. Psicólogos, médicos, assistentes sociais, nutricionistas e fonoaudiólogos devem ter um treinamento significativo nessa área, porque esses atletas precisam ser esclarecidos sobre o consumo de substâncias químicas.

2. Como o esporte pode, digamos, "proteger" uma pessoa, evitando que ela vá para o mundo das drogas?
O esporte promove a saúde. Ele é um fator de prevenção e promoção da saúde. E a primeira forma de trabalho para se evitar que o jovem entre no mundo das drogas é através da promoção da saúde. Através da transmissão de cultura que esclareça o jovem da importância de ter mais saúde. Naturalmente, isto gera uma resistência aos fatores desencadeantes de doenças.
Por exemplo, é comum em jovens esportistas de regiões praianas a utilização de bonés, a pela procura da sombra, a utilização de pastas ou cremes que protejam a pele. Isso já é uma defesa de uma pessoa jovem contra uma possibilidade de perda de saúde, no caso, câncer de pele. O esportista tende a ser mais preocupado com a saúde. Ele procura um sapato, um tênis ou um calçado que ele seja mais saudável, melhore a postura. Ele se preocupa com alimentação, se preocupa com a ingestão, com o que vai colocar dentro de seu corpo.
O esporte é a principal forma de saúde na humanidade nos nossos dias.
É através do esporte que se pode adquirir e mantém uma auto-estima satisfatória.
Quando o jovem pratica esporte e consegue, gradativamente, superar as dificuldades técnicas e físicas, ele vai se sentindo cada vez mais capaz, um vencedor. Com isso, ele passa a desenvolver um sentimento de auto-apreciação. Normalmente, o aumento da auto-estima leva a uma facilidade em solucionar problemas. E, portanto, as dificuldades emocionais dos jovens, que muitas vezes, desencadeiam o uso de substância química, ficam mais facilmente superáveis.
Outro ponto é a sensação de bem-estar que a atividade física gera. Uma das coisas que faz com que o jovem procure algum tipo de substância química, é a sensação de bem-estar. Na medida em que você tem uma fonte de bem-estar, diminui a necessidade de procurar outra.

3. Qual a importância do estímulo ao esporte durante a infância?
Em relação à questão das drogas, a importância é grande. Trata-se da promoção da saúde; de evitar que esse jovem procure outras fontes de prazer. E também, outro item de prevenção que é importante chamar a atenção, é o relacionamento social. Ele passa a se relacionar com jovens que praticam esportes e que passam a exercer pressão para que haja desempenho melhor, e não pressão para o uso de substâncias químicas.
A importância do esporte na infância é muito maior que isso. Tem também o aspeto orgânico, o desenvolvimento da circulação, da capacidade respiratória, sangüínea, desenvolvimento muscular, equilíbrio, habilidade motoras. Mesmo que não houvesse drogas, o esporte já tem um papel muito importante na promoção da saúde.

4. O esporte pode ser usado como instrumento para resgatar a saúde do paciente?
Certamente. Há um espaço para a atividade física bem organizada e, de preferência, leve nos centros de recuperação. E, além disso, nessa área abre-se espaço para professores de educação física. Antigamente, só trabalhavam com dependentes químicos psiquiatras, depois conselheiros em dependência química, psicólogos e assistentes sociais. É muito importante ressaltar que, hoje em dia, há espaço para outros profissionais. Afinal, quem se interna tem, geralmente, uma deficiência física também.

6. Existem hoje convênios médicos que cobrem tratamentos a dependentes químicos?
A partir de 2000, os convênios começaram, gradativamente, a cobrir o tratamento para pessoas portadoras de dependência química.
Hoje, com os convênios, praticamente não há mais o cliente particular. Ele até – na primeira vez – procura, depois ele faz um convênio. Um ano depois, ele tem direito a tratamento. Em internação já é usual. Com isso, abre-se espaço para o profissional de administração, porque num centro de recuperação você tem que calcular todos os gastos e descobrir quanto é que tem que entrar por mês para que tudo seja pago, no mínimo, senão o centro de recuperação começa a dar prejuízo e em um ano ele acaba. Então, o profissional de administração tem condições de fazer um “mix” - quantos pacientes têm que ter, por quanto tempo, preço médio de cada internação, de modo que, administrativamente, o centro de recuperação não venha a sofrer como uma empresa adoecida financeiramente.

Da mesma maneira que a família adoecia, ou adoece até hoje, às vezes até facilitando demais a doença, dando dinheiro demais ao doente, que gasta de forma inadequada, da mesma maneira se a clínica não tiver uma administração sólida, ela começa a sofrer. É preciso que haja uma administração competente, e a pessoa ideal é o administrador de empresas. É uma área em que mais profissionais podem ser aproveitados.
De uma forma geral o convênio viabiliza o tratamento para pessoas de classe média. Para consultórios também podem viabilizar, às vezes é necessário pedir por escrito, relatórios, gera um certo trabalho, mas é possível.

7. O Sr. acha que a legislação hoje está mais atenta à questão da dependência química?
Não vamos falar em política, mas houve um momento em que houve essa preocupação com tratamento de dependência química, através de empresas privadas. E realmente está sendo assimilado. Os seguros de saúde estão cumprindo porque é a lei e, inclusive, eu tenho visto casos em que eles se negam a pagar porque passou de 30 dias. Eles promovem a “auta-administrativa”, ou seja, o paciente tem que sair da internação porque o convênio não pagará mais. Mas, de uma modo geral, essa necessidade está sendo assimilada pelos convênios.

8. O fato de convênios cobrirem os custos de tratamentos e internações de dependentes é um estímulo para que a família encaminhe o indivíduo para esse tipo de ajuda?
Sem dúvida. A procura é muito grande agora. Havia uma época em que, eu e alguns colegas, praticamente tínhamos que convencer a família de que o melhor tratamento era a internação. Hoje, muitas vezes é o inverso. Eles querem internar o paciente antes do momento adequado. O paciente ainda pode se beneficiar de tratamentos de consultório, mas a família já quer internar. Os centros de recuperação chegam a ter fila de espera. Aqui em nossa clínica tivemos um aumento, nos últimos 3 anos, de 23,5% na procura de pacientes. Sendo que, no momento, nós estamos funcionando com casa cheia. E, além desses 23,5%, a procura com a casa cheia chega a 50% da lotação. Ou seja, em alguns meses dos últimos dois anos, houve 50% de aumento na fila de espera.
Nós tínhamos 77% de lotação, o que é muito bom. Lotação de 80% é considerado, dentro da saúde, um sucesso. Agora temos 100%. Nós acreditamos, antes do final do ano, ter 16 leitos a mais, oito quartos com dois leitos. Esse aumento reflete em todo o mercado de clínicas.
Inclusive, no Rio de Janeiro, houve fechamento de serviços do governo. Por incrível que pareça, não há nenhum serviço de tratamento para dependente menor de idade. Porque falta iniciativa do governo. Fazer uma clínica não é uma coisa fácil, você tem que ter o conhecimento de administração. Eu demorei muito para adquirir algum conhecimento, até que eu fiz um MBA e consegui me organizar um pouco. Na sou administrador, sou médico. Mas consegui montar uma clínica que tem dado bastante sucesso. Eu noto que qualquer pessoa que queira começar tem que dispor de uma quantidade ou vai precisar ter um estudo de pré-viabilidade. Tem que saber se naquela região vai ter convênio, tem que criar a clínica no papel. Nessa área de saúde não se fala muito de administração de saúde. Os melhores estão trabalhando para os convênios. Existe um MBA, no Rio de Janeiro, na Getúlio Vargas, que tem 30, 40 vagas. As pessoas que ocupam essas vagas são de serviços públicos, ministério da saúde, secretaria da saúde. Não há no mercado um profissional que tenha conhecimento administrativo. Na última Jornada de Psiquiatria da Região Sudeste, em Belo Horizonte, eu abordei esse tema: como se monta a auto-sustenção de um serviço de saúde, como você faz para não fracassar financeiramente. Você tem que administrar custos. Então, mesmo com 40 pacientes, os custos são muitos altos. Um serviço de medicina não deve estar voltado para um lucro alto imediato. Ele deve estar voltado para manutenção de condições satisfatórias para os funcionários por muito tempo.

Obs:A Clínica Jorge Jaber gera uma outra clínica que atende pessoas pobres. Neste serviço, todos os profissionais devem trabalhar gratuitamente durante uma manhã, para uma instituição que atende pessoas inteiramente pobres, de comunidades.
Segue depoimento do psiquiatra Jorge Jaber:
“Esse trabalho proporciona a possibilidade de ajudarmos pessoas carentes, de aprendermos vendo a doença em outro meio, que não é o meio que vemos. Certa vez vi um menino de 8 anos fumando maconha e nunca imaginei que veria isso. Isso proporciona também um trabalho dentro da comunidade, no ambiente onde há distribuição de substâncias químicas. É interessante observar que os mercadores de substâncias químicas ilícitas, no Rio de Janeiro, permitem que esse tratamento seja feito. Eles até permitem que você trabalhe com esses jovens para que eles não ingressem nas vendas. Existem duas facções, que estão em guerra no momento, e elas aceitam o mesmo tratamento em ambos os lados. Eles reconhecem que é importante esse tipo de trabalho”

 

 

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