ENTREVISTAS

 

Entrevista com Raquel De Boni (29/09/2008)

 

Formada em medicina pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e com residência médica em psiquiatria pelo Hospital das Clínicas de Porto Alegre, Raquel Brandini De Boni é pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Trânsito e Álcool (NEPTA), onde trabalha como co-investigadora principal no estudo intitulado “Impacto do Uso de Bebidas Alcóolicas no Trânsito Brasileiro”. Em uma entrevista muito interessante, Raquel fala sobre Lei Seca, comportamento dos jovens que bebem e dirigem, e sobre os desafios para implantação de medidas de segurança no trânsito. Confira!

 

1.Qual sua avaliação sobre os resultados obtidos até agora com a chamada Lei Seca?
Até o momento os resultados obtidos com a implementação da Lei 11.705/08 vinham sendo muito bons. Os dados divulgados apontavam para reduções de, em média, 20% nas vítimas de acidentes de trânsito atendidas em hospitais de pronto socorro, ou atendidas por resgate móvel, quando comparado com o mesmo período de 2007. Contudo na última semana, algumas instituições já apontavam para uma redução nesses números, alegando a falta de fiscalização como motivo para a queda.

2. Entre os jovens, o que motiva o comportamento de beber e dirigir?
Existem vários motivos, individuais e sociais. Entre os motivos inerentes aos indivíduos podemos destacar a impulsividade dos jovens, a baixa percepção de risco, a percepção de invulnerabilidade. Entre os motivos relacionados à sociedade, quando comparamos diferentes países e legislações, percebe-se que onde as leis são mais rígidas, e principalmente onde existe uma fiscalização eficiente – que provoque a percepção de certeza de punição rápida - o número de acidentes e vítimas relacionadas ao uso de álcool é menor. Além disso, no Brasil existe uma grande tolerância social ao consumo de álcool – inclusive um estimulo da mídia, no sentido de transformar o consumo em algo trivial, banal, sem destacar os danos potenciais do uso abusivo. Certamente isso tem contribuído para o aumento que vem sendo observado no consumo de álcool entre a população jovem nos últimos anos. E quanto maior o consumo, maior o risco de ser envolvido em acidentes e violência - as duas principais causas de morte em jovens brasileiros.

3. Nesse sentido, quais as estratégias de prevenção mais eficazes?
Os estudos internacionais mostram que as principais estratégias de prevenção para diminuir o número de vítimas de trânsito cujo acidente está relacionado ao álcool são a fiscalização eficiente, a certeza de punição e aplicação certa e rápida de penas aos infratores. Além disso, em muitos países também existe um controle maior, ou uma melhor regulamentação, sobre a venda de bebidas alcoólicas - que também é associada a diminuição nas taxas de acidentes e violência. Quando consideramos motoristas reincidentes, podemos citar os "ignition interlock", etilômetros adaptados aos veículos, que devem ser assoprados antes de dar a partida no carro, e cujo resultado positivo não permite a ignição. Também existem evidências importantes de que o tratamento da dependência química, alcoolismo, reduz as taxas de acidentes/reincidência em indivíduos dependentes - de forma que ele também deve ser considerado uma estratégia de prevenção. O que fica muito claro na literatura é o fato de que medidas de controle social são muito mais eficazes do que medidas que abordem apenas indivíduos como medidas educacionais isoladas.

4. Do ponto de vista político, quais os principais desafios para implementação dessas medidas?
Desde a implementação da Política Nacional para o Álcool, em 2006, vários esforços vêm sendo realizados no sentido de diminuir as conseqüências do uso abusivo e dependência. Contudo, é inegável que existem forças contrárias a implementação da política, haja vista a dificuldade na aprovação da lei que proíbe a veiculação de propagandas de bebidas alcoólicas cujo teor alcoólico seja inferior à 13 GL (onde entra a cerveja - bebida que, segundo os dados do primeiro Levantamento Sobre Consumo de Álcool no Brasil, é a preferida da população brasileira). Agora, em relação aos desafios relacionados ao beber e dirigir, certamente a maior questão no momento é a fiscalização, para a lei realmente continuar diminuindo os números de acidentes, a fiscalização deve aumentar, e para isso existem dificuldades econômicas e políticas. Segundo informação da Policia Rodoviária Federal, no Rio Grande do Sul, por exemplo, existem 42 postos de fiscalização e apenas 33 bafômetros (embora o número de bafômetros tenha aumentado no Estado, ele ainda é insuficiente, isso considerando que o Estado apresenta boas condições de trabalho, em comparação com algumas outras regiões do país). Além disso, é importante medir de forma confiável o impacto das medidas adotadas – o que requer um investimento em pesquisa. Como vamos saber se uma política funciona se nem sabemos quantos motoristas dirigem alcoolizados? Nesse sentido também se percebe uma maior disposição política, já que a Secretária Nacional de Políticas sobre Drogas vêm financiando estudos para demonstrar como bebem os indivíduos do país, e recentemente estudos para avaliar o impacto do álcool no trânsito brasileiro e capacitar a PRF na abordagem e reconhecimento de motoristas alcoolizados. Acredito que um dos pontos fundamentais é a integração de diferentes instituições governamentais (Universidade e PRF, por exemplo) no sentido de somar esforços que levem à alteração de um quadro ainda muito triste, quase vergonhoso, para um país como o Brasil.

1. No momento você está desenvolvendo alguma linha de pesquisa?
Atualmente estou trabalhando em um projeto no Núcleo de Pesquisa em Transito e Álcool (NEPTA), da UFRGS, coordenado pelo Dr. Flavio Pechansky, que vem desenvolvendo estudos para avaliar o impacto do álcool e outras substâncias psicoativas no trânsito brasileiro. Trata-se de um projeto inédito, em parceria com a Secretaria de Políticas sobre Drogas (SENAD), composto por oito estudos que buscam estimar desde a prevalência de alcoolemia positiva em motoristas das 27 capitais brasileira, até os custos associados aos acidentes relacionados ao álcool. Além disso, um aspecto importante desse estudo é o de que também estamos avaliando a presença de cocaína, maconha , anfetaminas e benzodiazepínicos na saliva dos motoristas - um tipo de teste novo no país, que pode ser importante no futuro para coibir o uso dessas substâncias - que comprovadamente também prejudicam a capacidade para dirigir.

Acesse o site do NEPTA e confira mais sobre o trabalho de Raquel De Boni

 

 

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