ENTREVISTAS

 

Entrevista com Ronaldo Laranjeira (04/09/2009)

 

Graduado em medicina pela Escola Paulista de Medicina (EPM – Unifesp) e com residência em psiquiatria pela mesma instituição, Ronaldo Ramos Laranjeira é Phd em psiquiatria pela Universidade de Londres. Atualmente é professor titular do Departamento de Psiquiatria da Unifesp, e tem experiência na área de psiquiatria, com ênfase em alcoolismo e dependência de outras drogas. É coordenador da Uniad (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas - Unifesp) e investigador principal do Instituto Nacional de Políticas do Álcool e Drogas (Inpad), um dos recém criados INCTs (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), por meio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Confira abaixo a entrevista gentilmente concedida ao Boletim da Abead desta semana!

 

1. O que é o INPAD? Quais sãos os objetivos deste Instituto?

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) criou, no final de 2008, cem institutos de pesquisas que deveriam determinar a política e a pesquisa em áreas-chave para o desenvolvimento do Brasil. A partir disso, foram criados institutos que trabalham, por exemplo, com física quântica e química fina. E logicamente, há uma parte sobre saúde. Dentro desta área, foi criado o Instituto Nacional de Políticas Públicas do Álcool e Drogas (Inpad).

No processo de seleção dos institutos, o Inpad competiu com todas as áreas da saúde. E o nosso projeto, aqui da Escola Paulista de Medicina, foi aprovado e conseguimos então este financiamento, que vai ajudar no desenvolvimento de pesquisas que visem o futuro da política de álcool e drogas no país.

2. Nacionalmente, como o INPAD pretende trabalhar no desenvolvimento das pesquisas?

Por sermos um instituto nacional, o ideal é que sejam feitos núcleos espalhados pelo Brasil todo. E nós já temos um núcleo em Florianópolis, coordenado pelo Dr. Marcos Zaleski (1º vice-presidente da Abead), que fará pesquisas na área. Em Curitiba, com o Dr. Marco Antonio Bessa (3º vice-presidente da Abead), também serão feitas pesquisas no Paraná. No Rio de Janeiro, nós temos a Dra. Analice Gigliotti que também estaria dentro do instituto. No Espírito Santo, temos a Dra. Maria Carmem que também nos ajuda.

Ou seja, temos esses vários núcleos que vão caminhar na mesma direção para que, com o auxílio do nosso financiamento, possamos desenvolver e organizar pesquisas em álcool e drogas de uma forma mais coesa.

3. Que tipos de pesquisas serão desenvolvidas?

Para se estudar e/ou trabalhar com álcool e drogas, podem ser feitas pesquisas que envolvem desde ratos (cobaias) até levantamentos populacionais.

Para o Inpad, as pesquisas que interessam são aquelas que, de alguma maneira, podem influenciar as políticas públicas em álcool e drogas. Nosso instituto tem preferência por desenvolver pesquisas que auxiliem na hora de escolher as políticas certas, as políticas que funcionam.

O exemplo disso é a pesquisa que relaciona “beber e dirigir”. Nesta pesquisa mostramos que em São Paulo, antes e após da chamada “Lei Seca”, houve diminuição do número de pessoas que dirigem alcoolizadas. Estamos vendo agora o porquê disto ter ocorrido e qual é o perfil das pessoas que ainda insistem em ir para o volante sobre influência de álcool. Tudo isso para aperfeiçoarmos a nova lei, que já é uma medida muito boa, mas tenho certeza que com novas pesquisas podemos melhorá-la a médio prazo.

Outro exemplo de pesquisa é o “beber entre adolescentes”, que trará respostas de perguntas como “Como isso ocorre no Brasil?” e “O que pode ser feito para diminuirmos o número de jovens que bebem?”. Esse é um tipo de pesquisa que tem repercussão imediata no aperfeiçoamento das políticas.

4. Como o senhor vê o desenvolvimento a implantação das atuais políticas públicas no Brasil?

Ainda tem muito discurso e pouca ação. Se você perguntar para quem está no governo, eles vão dizer que existem políticas e que existem ações.

Mas, para quem está na linha de frente, nós vemos que o que existe é muito desperdício de dinheiro por parte do Governo Federal e não há uma direção consistente. Eles não colocam dinheiro na área certa e, quando colocam, acabam desperdiçando. Ou seja, há muito recurso e esforço sendo desperdiçados.

O que podemos afirmar é que não temos no Brasil uma política governamental consistente em álcool e drogas. E o objetivo do nosso instituto é ajudar o governo a adotar políticas mais racionais nessa área e não na base de ideologias.

5. Há três meses foi formada a Comissão Brasileira sobre Drogas e Democracia, para debater a problemática das drogas ilegais. Essa comissão pode contribuir para o avanço no debate?

Essa comissão foi criada com o objetivo de legalizar as drogas. Ninguém pode ter dúvidas quanto a isso. E, no meu modo de ver, ela não veio para contribuir com o debate de melhores políticas em álcool e drogas.

Ela veio contribuir com aquelas pessoas que já defendem a idéia da legalização, através de pessoas com prestígio que possam conseguir espaço na mídia.

Em nenhum momento a comissão defendeu melhor acesso ao tratamento para aqueles que usam drogas, melhor orientação aos familiares de pessoas que são dependentes químicos.

No meu modo de ver eles são os defensores da legalização e não defensores do apoio social à famílias de pessoas que tem problemas nessa área.

 

 

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