ENTREVISTAS

 

Entrevista com Paulina Duarte (26/03/2010)

 

Entrevista com Paulina Duarte

 

O olhar feminino da Senad

Por Romina Miranda Cerchiaro
* Esta reportagem é parte da revista Anônimos nº 10. Para saber mais, acesse www.revistaanonimos.com.br

Com uma atuação repleta de propostas para a temática de Álcool e Drogas, a Secretária Nacional Adjunta da Senad concede entrevista exclusiva para a revista Anônimos. Em detalhes, ela conta sua história, fala sobre as ações, os projetos e mais... sobre os sonhos que estão sempre presentes na mente das mulheres que escolhem as vertentes da dependência química como desafio para suas trajetórias profissionais.

Revista Anônimos – Dra. Paulina, conte-nos sobre a sua trajetória profissional.
Dra. Paulina Duarte - Minha trajetória profissional não é muito diferente daquela de colegas da minha geração que tiveram a oportunidade de frequentar boas universidades. O que talvez tenha me diferenciado é que desde o tempo da universidade eu tinha uma ativa participação comunitária por meio do movimento estudantil e desde o primeiro ano fazia estágios e já sabia em que área eu queria atuar. Nessa época, em meados da década de 70, iniciavam no Brasil os primeiros grupos de profissionais interessados em compreender e tratar a questão do alcoolismo. Sobre outras drogas, quase nem se falava. Era caso de polícia. Então eu tive a sorte de ser selecionada para um estágio em um hospital psiquiátrico em que havia um grupo brilhante de jovens profissionais estudando e acompanhando toda a evolução do que havia de mais moderno em termos de saúde mental, principalmente o movimento que acontecia na Itália. Embora eu tenha começado a trabalhar com pacientes portadores de doenças mentais, me fascinava participar das reuniões e grupos de estudos sobre alcoolismo. Para alguns colegas e professores, aquilo era um absurdo. Havia muito preconceito por parte dos profissionais e o que mais se ouvia era que só escolhia trabalhar com alcoolismo quem não tinha competência para trabalhar em outra área. Até então, o alcoolismo era considerado um problema de caráter e de falta de vergonha, mas a mim não importava. O comportamento dos pacientes e dos seus familiares me instigava a estudar mais e mais para compreender por que uma pessoa, diante do caos em sua vida, continuava a negar os problemas com a naturalidade de quem está falando de outra pessoa. Assim eu fui participando de grupos interessados na área e dirigindo minha formação. No início dos anos oitenta eu passei em um concurso da Petrobrás para trabalhar em uma refinaria, no Paraná. Ali eu tive a oportunidade de coordenar a implantação de um dos primeiros programas de prevenção em empresa no Brasil. Foi um grande desafio com resultados muito gratificantes, pois o programa tinha toda uma dimensão comunitária e de reinserção social. Trabalhávamos com os poucos profissionais interessados no assunto, credenciados pela empresa, mas também valorizávamos o trabalho dos grupos de ajuda mútua como Alcoólicos Anônimos. Também com isso havia preconceito e um certo patrulhamento. Muitos colegas profissionais desdenhavam dizendo que encaminhar alguém para Alcoólicos Anônimos não era atitude profissional que merecesse respeito. Felizmente, como eu, havia outros profissionais que acreditavam no desafio e seguiam adiante. Participávamos de tudo. Íamos a congressos, seminários e, ansiosos, esperávamos publicações vindas do exterior com as novidades em pesquisa e técnicas de tratamento. Não havia internet e a literatura sobre o assunto era mínima. O desafio de atender usuários e dependentes de outras drogas se impunha e precisávamos buscar tudo o que a ciência e a prática pudesse nos oferecer. A partir daí, trabalhei em diferentes contextos: do ensino e pesquisa à área criminal com forte atuação na formação de recursos humanos para trabalhar na área de prevenção. Do meu dia a dia profissional busquei os elementos de estudo para o aperfeiçoamento acadêmico. Estudando os aspectos psicossociais envolvidos nos crimes julgados no Tribunal, pesquisei o envolvimento do álcool em vítimas e autores de homicídio. Esse trabalho, que me valeu o título de Mestre pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, me instigou a pesquisar outro tema inquietante para tentar compreender a associação entre o uso de álcool e os comportamentos de risco praticados por jovens, nossos alunos, na universidade. Com esse, obtive o título de Doutora pela mesma Universidade de São Paulo. Também me dediquei ao ensino de Pós Graduação na área de drogas e a projetos de extensão voltados à prevenção e ao desenvolvimento de lideranças comunitárias. Essa caminhada de mais de trinta anos, certamente contribuiu para que eu ocupasse a posição de Diretora Técnica da Senad – Secretaria Nacional Antidrogas no início do primeiro governo do Presidente Lula e que, posteriormente, me tornasse a Secretária Nacional Adjunta.

RA - Por que a escolha por uma profissão tão repleta de desafios?
PD - Pela possibilidade de aliar a técnica e o conhecimento científico à ação humanitária.

RA - O que a senhora, pessoalmente, gostaria realmente de conseguir realizar no contexto da dependência química?
PD - Primeiro gostaria de ampliar enormemente as ações de prevenção, em especial, para aqueles que vivem em situação de maior vulnerabilidade. Também gostaria de poder oferecer tratamento de qualidade a todos os que de alguma forma já tem algum prejuízo causado pelo uso de drogas ou que já são dependentes, assim como aos seus familiares.

RA - Quais são os atuais projetos da Senad?
PD - A Senad conseguiu construir, ao longo dos anos, uma abordagem cada vez mais técnica e mais participativa, de modo a envolver os diversos setores da sociedade que, de alguma forma, têm afinidade com o tema. Dessa forma, a Secretaria vem aprimorando, a cada dia, o trabalho estratégico focado em três eixos de atuação, dentro dos quais estão situados todos os projetos atuais: diagnóstico situacional, capacitação e projetos estratégicos. As ações emanadas do eixo de diagnóstico têm permitido a realização de levantamentos epidemiológicos sobre o consumo de drogas na população geral e em grupos específicos que vivem sob maior vulnerabilidade para o consumo e o tráfico de drogas e seu impacto nos diversos domínios da vida da população. Neste momento, estão em fase de finalização dois estudos de abrangência nacional: o VI levantamento do consumo de drogas entre estudantes do ensino fundamental e médio e I Levantamento sobre o consumo de drogas entre universitários. O levantamento do consumo entre universitários é inédito e, certamente, revelará dados muito importantes, pois, conhecer a realidade dessas populações específicas permite trabalhar com mais acerto na formulação de políticas públicas voltadas a nossos adolescentes e jovens.

RA – E quais são as ações do eixo da capacitação?
PD - Como segundo eixo, a Senad investe na capacitação dos atores sociais que lidam diretamente com o tema drogas e também atuam como multiplicadores de informações de prevenção, tratamento e reinserção social. Esse esforço tem permitido a formação e a articulação de uma ampla rede de proteção, formada por conselheiros municipais, educadores, profissionais das áreas de saúde, de segurança pública, profissionais que atuam no ambiente de trabalho, entre outros. Atualmente, estão sendo implementados quatro dos maiores projetos de capacitação da Secretaria, em âmbito nacional. Tendo em vista o desafio que é levar políticas públicas a um país de dimensões continentais como o nosso, a metodologia de educação a distância tem sido a melhor estratégia adotada, pois, permite a formação de pessoas chave de norte a sul do país. Através de parcerias com diversas universidades renomadas, todos os cursos recebem certificação de extensão universitária. O maior curso em execução neste momento é o Curso de Prevenção do Uso de Drogas para Educadores de Escolas Públicas, uma parceria com o Ministério da Educação, executado pela Universidade de Brasília. Voltado prioritariamente para educadores de 6º ao 9º ano e ensino médio, o objetivo é incentivar que as escolas desenvolvam programas de prevenção ao uso de drogas e outros comportamentos de risco no contexto escolar. Com grande sucesso, já foram capacitados até o momento 25 mil educadores, nas diversas regiões do Brasil e, atualmente, está sendo finalizada a terceira edição, para mais 25 mil. Outro projeto que merece destaque é o curso SUPERA, que visa capacitar profissionais de saúde nas técnicas de detecção precoce do uso abusivo de drogas e intervenção breve, bem como, ajudá-los a realizar encaminhamento e acompanhamento de casos no seu cotidiano de trabalho. O curso é executado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e já foram capacitados 10 mil profissionais de saúde que atuam em CAPS e CAPS AD. Na atual edição, em fase de finalização, estão sendo capacitados mais 5 mil profissionais da atenção básica que atuam no Programa Saúde da Família. Ainda no eixo capacitação, o Curso para Conselheiros Municipais tem obtido ótimos resultados na formação de uma rede para atuar na prevenção da violência e da criminalidade relacionadas ao uso indevido de drogas. Na última edição, em 2008, foram capacitados 15 mil conselheiros e há a previsão, no próximo semestre, da capacitação de mais 30 mil pessoas, com potencial para atuar ou já atuantes nos mais diversos conselhos: segurança, drogas, saúde, educação, assistência social, direitos da criança e do adolescente, idoso, entre outros. Este curso é uma parceria com o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (PRONASCI), do Ministério da Justiça e é executado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Acho importante destacar, ainda, o curso “Fé na Prevenção”, um projeto inédito de prevenção do uso de drogas em Instituições Religiosas e Movimentos Afins, que está em sua primeira edição, também realizado com recursos do PRONASCI e executado pela Universidade Federal de São Paulo. Temos a participação de 5 mil lideranças religiosas de diferentes doutrinas e movimentos que já atuam na prevenção do uso de drogas e outros comportamentos de risco. Sabemos que estas lideranças exercem um papel chave junto à comunidade. Além dessas formações, a SENAD realiza outras ações permanentes de prevenção junto à comunidade, como a realização de concursos nacionais de jingles, fotografias, cartazes e monografias e a distribuição de cartilhas informativas sobre o tema.

RA – E da área de projetos estratégicos?
PD - No âmbito dos projetos estratégicos, desde 2005, está em funcionamento o serviço VIVAVOZ, que consiste em um atendimento telefônico gratuito, aberto à população em geral, por meio do qual uma equipe especializada oferece informações qualificadas sobre as diferentes drogas, acesso aos recursos disponíveis na comunidade, bem como realiza intervenção breve motivacional por telefone, com pessoas que queiram rever seu padrão de consumo de drogas. O VIVAVOZ também é resultado de uma parceria entre a SENAD e o PRONASCI e está em funcionamento na Universidade Federal de Ciências de Saúde de Porto Alegre. Em 2009, conseguimos ampliar a abrangência do atendimento do serviço, que agora funciona até a meia-noite. Com o intuito de aprimorar ainda mais este atendimento, a partir de 2010, o projeto será ampliado para funcionamento 24 horas, incluindo sábados e domingos. Outros projetos estratégicos são o portal do Observatório Brasileiro de Informações sobre Drogas (OBID) e a Pesquisa Nacional sobre Álcool e Trânsito. O OBID pode ser acessado no endereço www.obid.senad.gov.br e congrega o mapeamento de instituições de prevenção e atendimento, banco de dados com pesquisas, notícias, eventos relacionados à área de drogas, entre outros. Os dados da pesquisa inédita sobre álcool e trânsito serão publicados nos próximos meses e trazem um retrato importante sobre o comportamento dos motoristas brasileiros.

RA - Sobre "Fé na Prevenção", por que um curso com este cunho e para este público?
PD - A concepção do projeto nasceu do reconhecimento por parte da SENAD de que, no Brasil, diferentes segmentos sociais têm contribuído de forma direta ou indireta para minimizar o impacto do uso de drogas na população. A SENAD entende que as instituições religiosas, assim como outras organizações comunitárias, são parte integrante da rede social de apoio às pessoas com problemas associados ao uso de drogas. Acreditamos que este papel preventivo possa ser potencializado caso tenham acesso a subsídios que ampliem o conhecimento sobre as questões relacionadas ao tema. Além disso, estas instituições podem atuar de forma mais articulada com a rede de serviços disponível para implementar as ações de prevenção e colaborar nos programas de tratamento e reinserção social de usuários e dependentes. Por tudo isso e, a partir do diálogo com diversas lideranças religiosas, a SENAD resolveu elaborar, com o auxílio de diversos especialistas da área de drogas, o curso Fé na Prevenção.

RA - O que o curso aborda?
PD - O projeto ocorre em duas fases. A primeira consiste num curso de formação básica à distância na área de drogas e, na segunda fase, são produzidas publicações específicas sobre o tema, para subsidiar o trabalho das lideranças junto aos membros da comunidade, com especial ênfase nos jovens, pais e cônjuges. O “Fé na Prevenção” está levando informações científicas, com fundamentação teórica qualificada para essas lideranças que já atuam na área e, muitas vezes, carecem de uma formação mais específica sobre o tema. Nosso objetivo não é interferir no aspecto doutrinário de cada religião, mas sim, fornecer ferramentas técnicas que complementem a atuação junto à comunidade. Ao final do curso serão elaboradas publicações para que essas lideranças possam disseminar informações adequadas sobre o uso e a dependência de álcool e outras drogas, assim como sobre sua prevenção, em uma linguagem acessível aos diversos segmentos do público leigo, mais especificamente para o público jovem, para pais e para cônjuges.

RA – O que traz o material didático?
PD - Em primeiro lugar, é importante ressaltar que o material didático foi elaborado de forma muito cuidadosa, em uma linguagem simples, mas que possibilitasse levar informações científicas, atualizadas e tecnicamente qualificadas para estas lideranças religiosas que atuam diretamente com a comunidade. Todos os alunos inscritos no curso receberam um kit de material didático, que inclui um livro texto e uma videoaula. O conteúdo do livro foi escrito por especialistas da área de álcool e outras drogas e é composto pelos seguintes temas: epidemiologia do uso de drogas no Brasil, a política e a legislação do país na área, conceitos sobre drogas, diferentes padrões de consumo, prevenção, fatores de risco e proteção, intervenção breve, modelos de tratamento, entre outros. Este conteúdo também foi disponibilizado na plataforma do curso e em forma de CD. A videoaula traz três situações práticas de intervenções realizadas por um líder religioso: uma família com um filho adolescente, a esposa de um usuário de drogas e um jovem usuário abusivo de álcool. A partir dessas situações hipotéticas, é possível traçar estratégias de abordagem e reflexão que podem ser utilizadas pela liderança em seu trabalho de aconselhamento cotidiano. Ao final do curso, os concluintes receberão outro kit contendo as 3 cartilhas elaboradas para disseminar informações adequadas sobre o uso e dependência de álcool e outras drogas, assim como sobre sua prevenção. Este material também foi produzido em uma linguagem acessível aos diversos segmentos comunitários, priorizando o público adulto jovem, pais e cônjuges. De forma específica, a cartilha de cônjuges aborda questões delicadas da convivência dos casais, ajudando-os a lidar com os problemas decorrentes da presença de álcool e outras drogas em seu cotidiano, bem como situações de conflito e violência. Trabalha também a questão do encaminhamento quando a pessoa que faz uso não deseja receber ajuda. Através da produção dessas cartilhas, realmente o objetivo foi fornecer respostas às necessidades reais de informação das famílias em geral. Nossa expectativa é que esse material seja mais uma ferramenta de trabalho preventivo das lideranças.

RA - Na sua visão, qual o papel da espiritualidade no contexto da dependência química?
PD - Já temos conhecimento de muitas pesquisas científicas que identificam a prática religiosa como um fator de proteção ao uso de drogas e demonstram que pessoas que frequentam alguma religião ou estão em busca de valores espirituais, têm menor probabilidade de fazer uso indevido de álcool ou outras drogas e maiores chances de recuperação, caso o façam. Dentre os achados científicos, encontra-se a relação entre a religiosidade e o enfrentamento do estresse e de situações difíceis na vida, que são fatores de risco para o uso de drogas. Por tudo isso, respeitamos o trabalho realizado pelas lideranças e valorizamos esta dimensão do ser humano como um fator preventivo e de proteção ao uso de drogas. Além do mais, no Brasil, muitas vezes as instituições religiosas se constituem também em espaços de acolhimento e suporte espiritual, afetivo e material para as diferentes demandas apresentadas pela comunidade.

RA - Em sua opinião, o que representa a prevenção no universo das drogas?
PD - Acreditamos que as ações de prevenção são as estratégias que trazem melhor relação custo benefício em longo prazo. Quando se fala em prevenção, é importante ter presente que, muitas vezes, os melhores recursos são aqueles já disponíveis na própria comunidade. Identificá-los e organizá-los para que sejam otimizados já favorece uma ação preventiva de qualidade. As ações de prevenção ao uso de drogas serão mais eficientes se forem integradas, formando uma rede social interativa, conectada, na qual os agentes envolvidos sejam conscientes do seu papel preventivo e, também, da importância dos demais parceiros nesse processo. Muitas vezes, se imagina que apenas os especialistas podem realizar prevenção, mas isso não é verdade. Todos nós somos agentes de prevenção em potencial e podemos trabalhar alguma ação em nosso cotidiano, seja na escola, no ambiente de trabalho, em nossas famílias, em nossa igreja. Da mesma forma, os recursos técnicos e materiais, assim como o enriquecimento da experiência local com fundamentação teórica e novas idéias, podem ser alcançados por meio de parcerias com instituições acadêmicas, governamentais e comunitárias.

RA - Quais são as dificuldades, os desafios que a SENAD encontra para implantar os seus projetos?
PD - Para nossa sorte, diversos setores da sociedade têm demonstrado grande interesse e compromisso com o tema das drogas, especialmente no que diz respeito às questões de prevenção. Isto já constitui o primeiro passo para fazer um bom trabalho de prevenção ou de atendimento nessa área. A questão das drogas está próxima de todos nós. Uma boa preparação daqueles que estão dispostos a abordar o tema evita ações alarmistas, emocionais, preconceituosas, irrealistas e, conseqüentemente, ineficazes. As capacitações promovidas pela Senad, em parceria com outros órgãos governamentais e instituições acadêmicas, têm procurado contribuir para a preparação dos vários agentes para atuarem de forma adequada. Entretanto, a complexidade do assunto e as múltiplas dimensões da questão das drogas exigem a constante atualização do conhecimento e a reflexão contínua para rever posições e preparar-se para novos desafios que a realidade apresenta. Acredito que, neste caminho, entre os maiores obstáculos enfrentados para que as políticas atinjam toda a população, em primeiro lugar está o tamanho de nosso país. Destacaria também a carência de recursos humanos e de recursos financeiros para as ações.

RA - Quais são os projetos futuros?
PD - Tendo em vista que a missão da SENAD é articular os diversos setores e coordenar a política nacional sobre drogas, a idéia é, em primeiro lugar, continuar investindo na capacitação de agentes multiplicadores de prevenção. Até o momento, quase 100 mil já foram formados, dentre eles: educadores, conselheiros municipais, profissionais de saúde e segurança pública, profissionais de segurança do trabalho, líderes religiosos e comunitários. Até o final de 2010, pretendemos atingir a meta de mais 100.000. Além disso, continuaremos a financiar projetos para a realização de pesquisas e ampliação dos serviços de prevenção, tratamento e redução de danos disponíveis. Outro campo importante é o do diagnóstico situacional. Pretendemos continuar a produzir dados abrangentes sobre o Brasil de modo a monitorar a evolução do fenômeno no País. Um avanço importante foi o fortalecimento da parceria existente entre a SENAD e o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania. Recentemente foi lançado o Programa “Ações Integradas na Prevenção ao Uso de Drogas e Violência”, que visa uma série de ações associadas com o foco na população de jovens que, por suas características de vulnerabilidade, têm sofrido impactos extremamente negativos pela exposição e envolvimento com as drogas lícitas e ilícitas e situações de violência associadas. As ações do Programa têm como público-alvo agentes de prevenção e a população de 56 municípios, incluindo as cidades de Vitória, Salvador, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre e respectivas regiões metropolitanas. No total, será atingida uma população absoluta de 24 milhões de habitantes. Dentre as diversas atividades desenvolvidas pelo Programa Ações Integradas, será dada ênfase à problemática do crack, que tem demandado a necessidade de aprofundamento de pesquisas na área. Entre vários estudos previstos, haverá a realização do primeiro levantamento epidemiológico sobre o consumo desta substância no país.

RA - Como a senhora acha que a sociedade deve se preparar para este enfrentamento contra as drogas?
PD - Um grande avanço para o país foi ter elaborado uma política nacional consistente em objetivos e diretrizes que orientam as ações destinadas a evitar ou reduzir os riscos e danos associados ao uso indevido de drogas. Esta política avançada deve funcionar como um norte para as ações preventivas a serem realizadas em todos os âmbitos. Da mesma forma, a atualização legislativa deve ser aprimorada de forma constante, de modo a responder cada vez melhor às necessidades da sociedade. Um exemplo é a formulação da lei sobre a associação álcool e trânsito, que tem gerado um impacto positivo na população e na redução do número de acidentes. Para ser eficiente e abrangente, as ações da sociedade devem ser multidisciplinares, intersetoriais e basear-se no princípio da responsabilidade compartilhada entre os diferentes atores, como a família, a escola, os serviços de saúde e assistência, as igrejas e toda a comunidade, além, obviamente, dos órgãos públicos e instituições governamentais. Além disso, é preciso conhecer a realidade do consumo da população, que permita a adequação das ações à realidade na qual se pretende intervir, levando em conta as especificidades de cada população envolvida. E, por fim, o principal é não ter medo de discutir o tema de uma forma honesta e realista.

RA - E a família?
PD - Prover a família com informações qualificadas é de suma importância para prepará-la a lidar de uma forma madura com questões relacionadas ao uso de álcool e outras drogas, seja na prevenção, seja quando o uso já ocorre, tanto por parte dos filhos ou mesmo dos pais. Numa visão sistêmica, é sabido que todos os membros são afetados pelo problema e, por isso, é imprescindível que a família saiba a quem pode recorrer. Neste sentido, a família também deve fortalecer a sua rede social, identificar recursos com os quais pode contar na própria comunidade, para que possa se sentir segura na abordagem da questão, principalmente ao pensar no papel que desempenha como primeiro grupo social de pertencimento. É importante que sinta que não está sozinha e que pode dispor de recursos e informações. Não é a toa que a própria Política Nacional sobre Drogas aponta em seus pressupostos a valorização das relações familiares. Também temos que ter cuidado para não reduzir a responsabilidade pela prevenção apenas como um papel a ser desempenhado pela família, tendo em vista que o uso de drogas é um fator complexo e que envolve vários aspectos psicossociais ao mesmo tempo. Mas, é importante que este núcleo seja incluído nas diversas ações preventivas e já existe a publicação de muitos estudos científicos que apontam a família como um importante fator de proteção ao uso de drogas.

RA - Em sua opinião qual o papel de um veículo de comunicação como a revista Anônimos, especializada no segmento?
PD - Os meios de comunicação exercem papel fundamental, pois, na maioria das vezes, é através deles que as informações sobre drogas chegam até a população em geral, permitindo a reflexão sobre o tema. Por meio deste trabalho, o público pode obter conhecimento sobre a política e a legislação vigentes no país, conhecer as ações do governo e sociedade civil, expressar sua opinião e divulgar suas próprias ações. Esse acesso e essa troca permitem a sensibilização para o avanço na construção de ações e soluções realmente efetivas nesta área. Porém, ainda é preciso investir muito na capacitação da mídia, que às vezes revela pouco conhecimento específico na área. Sabemos que, quando bem qualificados e informados, os meios de comunicação especializados podem ser aliados na divulgação de informações verdadeiras, baseadas em evidências científicas, que ajudem a dirimir os preconceitos que ainda permeiam a discussão do tema. Revistas como a Anônimos, a meu ver, exercem importante papel, pois, têm ajudado na disseminação de informações qualificadas e na mobilização de pessoas e instituições para a transformação das questões relacionadas ao uso de álcool e outras drogas em nossa sociedade.

 

 

« Voltar

 

 

Cadastre seu e-mail e receba nosso Boletim.
       
Direitos Autorais | Privacidade
Copyright © 2010 Abead