ENTREVISTAS
Entrevista com Susana Seadi (23/04/2010)
Entrevista com Susana Seadi
Susana Seadi é assistente social especialista em terapia de casal e família. Mestre em Psicologia Clínica pela PUCRS, integra atualmente a equipe Contexto, nas seguintes áreas de atendimento, ensino e pesquisa na prevenção e tratamento da dependência química. Nesta entrevista para o Boletim Abead ela falou sobre o conceito de validação. Confira!
O que é validação?
A palavra possui muitos significados. A essência da validação é que o terapeuta comunique à família ou ao indivíduo que suas respostas têm sentido levando-se em conta o contexto e sua situação atual. É importante dizer que validar não significa concordar nem dar razão ao outro. É aceitar e reconhecer as emoções como expressão autêntica de sua própria visão de mundo e de seus sentimentos. As emoções são validadas, não as condutas. É importante iniciar ressaltando que quando o terapeuta outorga tanta importância à aceitação quanto à mudança, as pessoas mostram-se mais colaborativas e tendem menos ao abandono do tratamento.
O que caracteriza uma família invalidante?
Um ambiente invalidante é aquele no qual a comunicação de experiências privadas é percebida como equivocada, inapropriada e as respostas ou reações são consideradas extremas ou exageradas. Em qualquer situação as experiências privadas ou individuais não são vistas como respostas válidas aos fatos. Portanto, a demanda que uma pessoa pode colocar nesses contextos é muito restrita. Quando adultos, essas pessoas não conseguem resolver seus problemas, adotando as mesmas características invalidantes do ambiente em que foram criadas e invalidando suas próprias experiências.
Por que utilizar esta definição?
Em primeiro lugar porque tem sido efetivo em diversos transtornos e contextos, inclusive em contexto aditivos. A definição de um entorno invalidante pressupõe sinteticamente os seguintes paradigmas: o comportamental (se ocupa das condutas); a consciência plena, facilitando a aceitação e a compaixão; o “estar aqui e agora”, refere-se à habilidade em adquirir uma maior consciência de si mesmo e do contexto onde se encontra inserido e o equilíbrio entre a aceitação e a mudança. Essa definição contribui para que no contexto terapêutico desenvolva-se a construção conjunta de um ambiente que apóie tanto ao terapeuta como à família no uso de novas habilidades, reforçando condutas de adaptação e eficazes, tratando de não estimular ou promover condutas problemáticas. Quanto mais tempo uma pessoa experimentar certas contingências, maior será a influência no seu modo de ser.
Como surgiu este conceito?
Na Terapia Comportamental Dialética proposta por Marsha Linehan, desenvolvida especificamente para o tratamento de Transtornos de Personalidade Limítrofe. A terapia comportamental dialética teoriza que os problemas de conduta são resultado de uma combinação de fatores biológicos e ambientais.
Quais são as diferenças entre famílias invalidantes hoje e há 20 anos?
Essa é uma pergunta difícil de responder. Acredito que 20 anos passados devemos refletir sobre mudanças no panorama da dependência química e das configurações familiares: nos comportamentos aditivos, incluindo-se internet, o sexo e jogo virtual, o crack antes considerado exclusividade de meninos e meninas de rua. Refletir também sobre questões de gênero: as meninas que estão bebendo e fumando mais cedo e mais que os meninos. Na prática do atendimento de famílias com dependência química estão as “novas” configurações familiares (recasamentos, casais homossexuais, lares uniparentais, famílias de três gerações). Hoje família inclui muitos tamanhos, formatos e variedades. Na prática, incide em uma maior complexidade das relações. Parece-me que o que não muda é a forma como a invalidação acontece. Ela acontece nas relações intrafamiliares isso é, entre as pessoas que estão mais próximas. Nas relações vinculares e hierárquicas, não necessariamente nas relações de consanguinidade, mas necessariamente nas relações onde o afeto está implicado. No relacionamento com o outro significativo, o outro representativo das figuras parentais.
O processo de tratamento é o mesmo?
O processo de tratamento consiste em entender, aceitar e identificar os fatores relacionados às manifestações dos comportamentos aditivos e atuar de um modo mais efetivo nas crises, frente a condutas de risco para assim criar um ambiente validante e continente.
Como diagnosticar?
O diagnóstico acontece através das narrativas familiares. O enfoque são as pessoas em relacionamento. Então a terapia não seria dirigida em busca de uma verdade, mas pela necessidade de contextualizar e compreender.
Existe algum tipo de perfil?
Um contexto invalidante tem como característica principal a negação ou uma resposta inadequada às experiências privadas dos indivíduos. Não só desconsideram suas reações emocionais como válidas diante dos fatos desencadeantes. Também suas necessidades não são atendidas e, além disso, são minimizadas, desqualificadas, e muitas vezes punidas. A narrativa de muitas famílias com dependência química que chegam ao tratamento é “ não imaginava que era tão grave... não sabia que usava tanta droga”, apesar de inúmeras evidências. Na maior parte das vezes são famílias multiproblemáticas e a invalidação acontece entre os seus componentes. O pai que não valida a mãe como competente e /ou vice- versa, por exemplo. Um contexto invalidante não ensina ao indivíduo nomear suas emoções, a tolerar frustrações e confiar em suas respostas emocionais como interpretações adequadas dos fatos. Assim um ambiente invalidante é nocivo para uma pessoa com vulnerabilidade emocional, essa por sua vez provoca que este invalide um ambiente apoiador e continente.
Voltando para a primeira questão: o que é validação?
Validação comunica entendimento e aceitação e consequentemente vai construindo confiança e intimidade. Um ponto essencial a esclarecer é que aceitação é seguidamente definida como o oposto da mudança. Uma espécie de conformismo. Aqui, a aceitação é uma parte efetiva e integra a mudança. E muitas vezes a validação como resposta envolve mais ação do que palavras. Por exemplo: quando um filho compartilha o seu desejo de parar de usar drogas, apesar de ainda não ter conseguido e o pai consegue ser firme, ficar próximo e abraçá-lo. A validação através da ação é uma clara demonstração do entendimento daquilo que foi expresso.
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