ENTREVISTAS
Entrevista com Entrevista com Daniela Faertes (30/04/2010)
Daniela Faertes
A psicóloga do serviço de dependência química e outros transtornos do impulso da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro e especialista em terapia cognitivo comportamental e entrevista motivacional é a entrevistada da semana. Confira!
Como funciona a terapia cognitiva comportamental para dependentes químicos?
A terapia cognitiva comportamental é uma abordagem psicoterápica estruturada, diretiva, focal, baseada numa relação genuína entre paciente e terapeuta, pautada pela empatia e colaboração mútua. Ela pode ser aplicada em diferentes locais (ambientes hospitalares, ambulatoriais e domiciliares) e em diferentes modalidades (individual, grupal e familiar).
Neste modelo propõe-se que pensamentos, sentimentos, sensações físicas e comportamentos estão inter-relacionados uns aos outros e são determinados, em grande parte, pelo modo como o indivíduo estrutura o mundo que o cerca, ou seja, como avalia e interpreta as situações do ambiente. Assim cada pessoa tem crenças centrais influenciadas pelas suas experiências de desenvolvimento, e outros fatores bio-psico-sociais e irá lidar com a vida “sob essas lentes.” Neste sentido, mais importante do que a situação real, é a avaliação que o indivíduo faz a respeito dela. Uma mesma situação pode, portanto, desencadear diferentes emoções, pensamentos e comportamentos em diferentes pessoas. Na maioria das vezes, tais crenças não são conhecidas pelas pessoas. Elas podem ser disfuncionais levando o indivíduo ao sofrimento psíquico, a comportamentos mal adaptativos e estratégias compensatórias que são comportamentos que visam aliviar ou anular os pensamentos automáticos e emoções negativas.
Pela teoria cognitiva, a dependência química resulta de uma interação complexa entre cognições (pensamentos, crenças, idéias, esquemas, valores, opiniões, expectativas e suposições), comportamentos, emoções, relacionamentos familiares e sociais, influências culturais e processos biológicos e fisiológicos.
O contato inicial e contínuo com a droga, influenciados por suas crenças centrais, gera outro sistema de crenças relacionado ao uso da droga. Estas crenças são suficientes para eliciar pensamentos automáticos distorcidos, sensações e emoções desagradáveis e até mesmo desencadear a fissura. Esse conjunto de cognições impulsiona o paciente ao uso, fechando um ciclo cognitivo para o uso continuado da droga. Elas podem ser:
Crenças antecipatórias – expectativa de que o uso da droga produzirá recompensa, gratificação ou prazer; crenças de alívio - expectativa de que o uso aliviará ou afastará algum desconforto e crenças permissivas ou facilitadoras - acabam por considerar o uso aceitável apesar das consequências, autorizando o indivíduo a utilizar a substância.
As crenças relacionadas às drogas normalmente são ativadas em situações específicas, ou pela própria fissura. Portanto na terapia, é necessário que se faça uma conceituação cognitiva com o objetivo de identificar e reestruturar as cognições e crenças disfuncionais tanto as centrais quanto as relacionadas a droga. Isso inclui o processo de desafio às suposições e regras através de questionamento socrático, análise dos prós e contras envolvidos nesta crença, desafio da crença e testes comportamentais. O objetivo é dar flexibilidade cognitiva no momento de avaliar situações específicas, percebendo e respondendo a essas hipóteses de uma forma mais funcional, além de habilitar o cliente a criar estratégias de resolução de problemas.
O que a diferencia se comparada ao mesmo modelo psicoterápico de outros transtornos?
Tendo em vista que a dependência química é uma doença com baixa aderência ao tratamento e a maioria dos clientes apresenta comorbidades associadas e baixa motivação para a mudança de comportamento, a terapia cognitiva comportamental precisa muitas vezes ser associada a outras abordagens psicoterápicas e levar em conta todos os aspectos concernentes à complexidade da doença. A dependência química exige uma abordagem multiprofissional, além de uma avaliação criteriosa, um tratamento adequado das comorbidades e um planejamento individualizado que melhor se adapte às necessidades de cada um. A partir desta avaliação poderão ser integradas além da psicoterapia e do tratamento medicamentoso, indicação de terapia familiar, grupo anônimos, internação, entre outros.
Quanto tempo é necessário até que a pessoa comece a sentir os efeitos da terapia?
Isso varia muito de acordo com o paciente, a gravidade da doença, a rede de apoio, as comorbidades associadas, aspectos sociais, viabilidade de tratamento, entre outros, mas alguns estudos apontam que em torno de 12 sessões já é possível começar a sentir efeitos positivos da terapia. Quanto à eficácia, esse é um dos transtornos de maior desafio para a psiquiatria atualmente e mesmo com o crescimento de pesquisas e estudos sobre o assunto os resultados ainda são insatisfatórios. Não podemos deixar de levar em conta que o cliente dependente de drogas quer mudar um aspecto do seu comportamento porque este gera consequências desagradáveis e não porque este comportamento é intrinsecamente desagradável, ou seja, existe uma ambivalência com relação ao tratamento, o que acarreta numa baixa motivação. Mas em termos de psicoterapia a integração da terapia cognitiva comportamental com a abordagem de entrevista motivacional é a que apresenta melhores resultados segundo as pesquisas mais recentes sobre o assunto.
Na terapia, existe algum modelo de prevenção da recaída ou enfrentamento de situações de risco? Caso sim, como funciona?
Sim existe e é uma parte fundamental do tratamento. A prevenção de recaída visa a manutenção do processo de mudança de hábitos. O modelo de prevenção de recaída consiste em identificação e aquisição de habilidades de enfrentamento para lidar com situações de risco, modificação de estilo de vida e treinamento de habilidades sociais.
Em primeiro lugar o cliente deve identificar as situações de risco que propiciariam ou aumentariam as chances de uso ou de recaída: ambientes, companhias, disponibilidade de droga, e todos os determinantes intrapessoais (estados emocionais negativos ou positivos, fissura) e interpessoais (conflitos interpessoais, pressão social), para que possam ser evitadas e traçadas previamente estratégias eficazes de enfrentamento para as situações que não possam ser evitadas. A cada vez que o paciente tem uma resposta adequada que o proteja ou evite o uso de droga, há aumento da auto-eficácia (avaliação positiva sobre sua própria capacidade de atingir uma meta). Com isso, diminui cada vez mais a probabilidade de recaída.
Em relação à importância da mudança do estilo de vida, pesquisas mostram que pessoas que continuam com o mesmo estilo de vida e atitudes após cessarem o uso de drogas têm maiores chances de recair. As estratégias de intervenção no estilo de vida incluem exercícios, técnicas de relaxamento e manejo de estresse, a introdução e experimentação de novas formas de prazer, desenvolvimento de redes de apoio social, procurando reduzir a freqüência e intensidade da vontade e necessidades que costumam ser consequência de um estilo de vida desequilibrado.
Já os treinamentos de habilidades sociais incluem treinamento de assertividade, socialização, formas de lidar com críticas, comunicação verbal e não verbal, aprender a dizer não, treinamento da capacidade empática entre outros. Tem como objetivo aumentar a qualidade das atividades e relações interpessoais, tendo em vista que os conflitos interpessoais são um estímulo de alto risco para muitos dependentes químicos.
As vantagens da introdução desses itens demonstrados em pesquisas como eficientes para a manutenção da abstinência devem ser compartilhadas com o cliente para que aumente a sua motivação. O objetivo final das técnicas mencionadas é que o paciente desenvolva a capacidade de evitar comportamentos associados ao consumo, lidando melhor com relacionamentos e com fontes de estresse.
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