ENTREVISTAS
Entrevista com Themis Reverbel (07/05/2010)
Themis Reverbel, que é médica formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRG) e pesquisadora responsável de ensaios clínicos no Núcleo de Pesquisa em Vacinas (NUCLIVAC) e de pesquisa básica no Laboratório Experimental de Hepatologia e Gastroenterologia (LEHG) do HCPA, é a entrevistada da semana. Confira!
É prática, em muitas famílias, a "iniciação" das crianças no consumo do álcool? As crianças e adolescentes têm mais abertura, mais liberdade? Por quê?
Acredito firmemente que a "iniciação" ocorra devido a práticas culturais. Embora a influência de amigos e colegas exista, principalmente entre adolescentes, os hábitos familiares ligados ao uso de álcool são muito importantes.
Em 1991 fiz, com colegas da universidade um estudo intitulado "Consumo de bebidas alcoólicas por menores de 15 anos em um município de colonização italiana típica no Rio Grande do Sul". Observamos que 58,5% das crianças ingeriam algum tipo de bebida alcoólica. Em algumas famílias notamos que as crianças ingeriam até mais de 1 litro por semana, geralmente vinho e mais raramente cerveja e graspa. Não foi surpresa constatar que o hábito foi mais comum no sexo masculino. Aspecto chamativo foi o fato de que 100% dos pais e 75% das mães tinham o hábito de beber diariamente, 51% dos entrevistados tinham produção própria de vinho. Fica bem evidente que há uma influência direta do hábito dos pais.
Quais são os principais fatores que tem levado as crianças e adolescentes a consumirem bebidas alcoólicas?
Sabe-se que no início da vida o alcoolismo compromete o desenvolvimento dos indivíduos. E ele vem se tornando cada vez mais precoce.
Vários estudos vêm mostrando que há redução da média de idade de início do uso de bebidas alcoólicas. Em 1993, a média de idade observada em estudantes de 10 capitais brasileiras era de 13 anos. Em 1997, a média passou para 11 anos. Além disso, o CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas) realizou quatro estudos em alunos nos anos 1987, 1989, 1993 e 1997 e constatou que houve aumento significativo do uso "pesado" de álcool.
Foi constatada tendência a maior frequência nas classes sociais mais elevadas, contrariamente o que ocorria. Há diferenças nítidas nas diversas regiões. Galduroz e cols, em 2004 observaram índices de uso pesado de álcool em 6,7%, numa amostra de cerca de 48.000 estudantes, e Carlini-Marlatt, em 2003 havia descrito uma percentagem muito maior, de 32,4% em São Paulo.
Acredito que os principais fatores que levam crianças e adolescentes ao hábito são: a) uso rotineiro, pelas famílias, de bebidas inclusive em festas de aniversário de crianças, b) famílias com baixo nível educacional, c) associação do álcool com melhora de "performance" social , d) a disponibilidade financeira para aquisição de bebidas e outros "estimulantes", e) efeito da mídia na "glamourização"do álcool., f) ausência de religiosidade nas famílias.
Em casos de dependência existem diferenças no tratamento utilizado para uma criança ou adolescente e no utilizado em um adulto? Em qual indivíduo há melhor aderência ao tratamento e por quê?
Nunca é demais ressaltar a importância das três ações fundamentais para tratar o consumo indevido do álcool: educar (para prevenir), fiscalizar e orientar os dependentes.
Sabe-se que o álcool está associado a vários comportamentos de risco: acidentes de trânsito, uso de drogas ilícitas, tabagismo, gravidez indesejada, suicídios, violência doméstica, sexo sem proteção, falta de adesão às orientações médicas. Certamente há diferenças na abordagem da dependência de pacientes em relação à idade. A etapa de vida na qual os indivíduos não raramente encontram-se mais fragilizados é a adolescência e é precisamente a fase na qual o uso do álcool tem aumentado na sua forma "beber pesado episódico".
Assim, mulheres adultas, jovens, sem emprego, divorciadas, com familiares alcoólatras e depressivas são as que mais bebem. Geralmente o ato de beber, ao contrário dos homens, é solitário e visa um efeito ansiolítico. O êxito do tratamento depende de muitas variáveis: adesão do paciente, apoio no ambiente familiar, manutenção da motivação dos pacientes, confiança nos terapeutas e, evidentemente, da adequação das diferentes modalidades terapêuticas utilizadas. Não há um tratamento padrão, uniforme.
Quais os tipos de pesquisas relacionadas ao álcool são desenvolvidas? Qual a perspectiva neste campo?
Há várias linhas de pesquisa em alcoolismo: aspectos genéticos, comportamentais, nutricionais, epidemiológicos, de reabilitação psico-social, custo para o país etc. Como sou gastroenterologista e trabalho diretamente com os efeitos no fígado meus estudos se relacionam às lesões hepáticas.
Escolhi como modelo experimental os peixes zebrafish, por vários motivos. O manejo, a facilidade de reprodução e de manutenção, que já estão bem estabelecidos. São de pequeno porte (3 a 5 cm), baixo custo e, fundamental, apresentam características celulares, bioquímicas e fisiológicas muito semelhantes aos mamíferos. Apresentam reações deletérias pela exposição ao álcool (colocado em diferentes concentrações nos aquários), muito semelhantes àquelas dos seres humanos: embriões com malformações congênitas (similares à síndrome do alcoolismo fetal), alterações comportamentais e neuroquímicas e lesão hepática devida à deposição de gordura dose-dependente.
Acredito que o zebrafish possui um grande potencial no meio científico. No momento tenho alunos de pós-graduação envolvidos em projetos que utilizam os peixes como modelo de doença hepática decorrente de exposição aguda ao etanol, expressão de genes vinculados à de doença crônica devida ao álcool e sua prevenção através de probióticos.
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