Independência ou morte
XIX Congresso Nacional da ABEAD aconteceu no Rio de Janeiro, entre os dias 5 e 8 de setembro
Seria difícil encontrar data mais apropriada. Enquanto a população descansava o feriado da Independência, os principais especialistas do país se reuniram para debates e apresentações sobre a promoção da independência do álcool e de outras drogas, principalmente entre os jovens brasileiros. O XIX Congresso Nacional da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD) aconteceu no Rio de Janeiro, entre 5 e 8 de setembro, simultaneamente ao I Congresso Latino-Americano da Sociedade para Pesquisa em Nicotina e Tabaco (SRNT). Os eventos reuniram cerca de mil profissionais e pesquisadores especializados em dependência química, que discutiram, entre outros, o tema oficial “Cuidando de nossos jovens”.
Segundo a presidente do evento, Analice Gigliotti, a escolha aconteceu devido à percepção social do aumento de problemas relacionados às drogas entre os adolescentes. “Os jovens estão, a cada dia que passa, consumindo mais drogas e mais precocemente. É uma preocupação da ABEAD instrumentalizar os profissionais sobre prevenção e tratamento da dependência”. O aumento específico no consumo de bebidas alcoólicas nessa faixa etária também chamou a atenção da organização do evento. “Tudo começa no álcool, que leva ao consumo de outras drogas. Nós buscamos oferecer ferramentas aos congressistas para lidar com esses problemas”, explicou a psiquiatra.
Para ela, o objetivo foi totalmente alcançado. “Nós tivemos inúmeras palestras a respeito de tratamento de adolescentes, sob os mais diversos pontos de vista. Por exemplo, houve uma atividade que durou uma manhã inteira sobre como se aborda a família e outra sobre o tratamento específico de adolescentes. Tivemos também duas mesas redondas sobre psicoterapias para adolescentes. Todas as atividades foram elogiadas pelos participantes”, comentou.
Ao analisar a organização do evento, Analice destacou o trabalho em conjunto com a SRNT. “O Congresso correspondeu às nossas expectativas. Tivemos dois congressos simultâneos e mil participantes no total. Iniciamos uma parceria que pode ser frutífera para toda ABEAD”.
As apresentações feitas no evento serão disponibilizas em breve no site da ABEAD.
Despedida
O XIX Congresso Nacional da ABEAD foi a última atividade do psiquiatra Sergio de Paula Ramos como presidente da Associação. O médico, que comandou diversas ações de sucesso na entidade, passou o cargo para a presidente do evento, Analice Gigliotti, que era até aquele momento a 1ª vice-presidente. Na abertura do Congresso, Ramos discursou sobre a importância da participação da ABEAD na força tarefa da Organização Mundial da Saúde (OMS) para a Redução Global do Consumo de Álcool, que propõe a proibição da propaganda, a diminuição da acessibilidade e o cumprimento das leis sobre venda para menores e as sobre álcool e trânsito.
Em sua fala, o médico criticou a postura atual da indústria do álcool. “Com o país encharcado nas propagandas de bebidas alcoólicas que nos distorcem a percepção, somos levados a não reconhecer o álcool como droga e cerveja como bebida alcoólica”. Segundo ele, a contribuição em impostos destas empresas (3% do PIB) não cobre os prejuízos sociais. “O álcool gera de 8% a 14% de todos os problemas de saúde no mundo fazendo com que, no Brasil, lotem-se ambulatórios, hospitais e as filas na Previdência Social em busca de auxílio doença e aposentadoria por invalidez. Toda esta conta perfaz algo perto de 7% do PIB ao ano. É isso mesmo. A conta do álcool fecha no vermelho em 4 % do PIB ao ano”, declarou.
Para Ramos, o problema é ainda maior se considerada a questão da violência. “Diferentes pesquisadores nacionais demonstraram que 76% dos homicídios, 59% das mortes no trânsito, 54% da violência doméstica contra mulher e 37% dos suicídios estão associados ao consumo das bebidas alcoólicas”, explicou.
Ele finalizou o discurso de forma auspiciosa “É isso que espero da população brasileira. Que nos tornemos pais mais responsáveis, preocupados com o zelo de nossos filhos e que consigamos que nossas autoridades façam, em primeiro lugar, cumprir as leis existentes, notadamente as sobre álcool e trânsito, as sobre venda para menores e a sobre propaganda e, contemporaneamente consigam criar um cenário capaz de melhorar não só a vida de nossos filhos, como também a nossa própria. Nesta luta, a ABEAD estará sempre no pelotão da frente”.
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