RELEASE

 

 

Tabagistas brasileiros

 

Publicado em: 18/06/2010, às 17:21

 

Pesquisa traça panorama detalhado do uso de produtos derivados do tabaco no Brasil

 

A partir da Pesquisa Especial de Tabagismo (Petab) foi possível monitorar e perfilar o consumo de tabaco no Brasil. Baseada na Global Adult Tobbaco Survey (GATS), pesquisa que segue modelo global para acompanhar indicadores de controle do tabagismo, a Petab foi realizada a caráter de levantamento particular na Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios, a PNAD, realizada em 2008, pelo IBGE.

Segundo Valéria Cunha, chefe da Divisão de Controle do Tabaco, do Instituto Nacional do Câncer (INCA), o estudo foi inédito por sua abrangência (todo o território nacional) e levantamento de diferentes aspectos, como prevalência, cessação, conhecimento, locais de compra e mídia, entre outros itens. Foi a primeira vez que estudos referentes ao tabagismo participaram da PNAD.

“Também critérios como sexo, faixa etária, renda familiar, nível de escolaridade e região geográfica contribuíram para que a pesquisa abordasse de maneira detalhada o consumo de tabaco em todo o país”, afirma Valéria. A especialista em saúde coletiva participa do Seminário Álcool, Tabaco e a Publicidade, promovido pela Abead, dia 26 de maio, na Unifesp, em São Paulo, onde fará a análise dos dados e suas implicações na saúde pública.

Dentre as informações as informações obtidas, Valéria destaca a prevalência na região Sul do país, com 19% dos tabagistas. Em relação às mulheres, a região também possui o maior percentual, 15,9%. “O Rio Grande do Sul é o Estado com maior número de mortes causadas por câncer no pulmão, mas ainda faltam estudos qualitativos para analisar os motivos dessa prevalência de tabagismo”, comenta.

A especialista levanta algumas hipóteses, entre elas, a concentração de cultivo da folha do tabaco na região. O estado detém 51,12% da produção nacional, em pequenas propriedades localizadas no entorno das indústrias de transformação e beneficiamento. “Essa cultura contribui para uma visão positiva do tabaco, associada ao progresso, ganho e subsistência”, explica.

Apesar de, no total, ser maior o número de homens fumantes, a pesquisa apontou a persistência do tabagismo entre as mulheres. “Estudos mostram que o metabolismo feminino processa de maneira diferente a nicotina, elevando o risco de doenças. Desde 2002, o câncer de pulmão é a segunda maior causa de mortes por câncer entre as mulheres, ultrapassando o câncer de colo do útero”, diz Valéria Cunha.

Além dos aspectos físicos, os fatores psicológicos, mais latentes nas mulheres, têm forte influência, relacionados às cargas emocionais e até mesmo ao ciclo menstrual. “Um ponto interessante é também a associação das mulheres entre fumar e emagrecer, ideia bastante difundida pela publicidade de cigarros”, ressalta Valéria.

Documentos confidenciais da indústria do tabaco, liberados após ações judiciais nos Estados Unidos, mostram que as articulações publicitárias estão voltadas não só aos jovens, mas também às mulheres. Com a restrição das propagandas nos veículos de comunicação, a publicidade adere a técnicas mais sofisticadas e novos canais. “Na internet, por exemplo, não temos controle”, destaca Valéria.

A pesquisa colaborou para mostrar a força dessa publicidade e, principalmente, das mensagens subliminares. “Mesmo com as restrições e proibições, muitos entrevistados afirmaram ver propagandas de cigarros nos veículos de comunicação e citaram campanhas que há muito tempo não são mais veiculadas”, analisa.
Em contrapartida, também há levantamentos positivos: 96% dos entrevistados disseram acreditar que fumar pode causar doenças graves. Valéria entende o número como uma grande conquista. “A conscientização de que o cigarro possui substâncias nocivas é o primeiro passo para controle da dependência e ter o apoio da população na legislação que proíba a publicidade total do tabaco e o fumo em ambientes fechados”.

Lei antifumo: a população apóia essa idéia

Uma pesquisa realizada pelo Governo do Estado de São Paulo três meses após a implantação da Lei 13.541, que proíbe o fumo em ambientes fechados de uso coletivo, apontou 94% de aprovação. A questão dos estabelecimentos também foi abordada e constatou que 99,6% cumprem a norma. “A expectativa é que a lei, estadual, passe a ser nacional. Assim como São Paulo, muitos estados têm adotado a iniciativa”, comenta Mônica Andreis, psicóloga e vice-presidente da Aliança de Controle do Tabagismo no Brasil (ACT), que também participará como palestrante do Seminário Álcool, Tabaco e a Publicidade.

A psicóloga ressalta ainda uma melhoria na qualidade do ar, com 75% de redução do nível de nicotina, em ambientes fechados de uso coletivo, de acordo com levantamento realizado pela ACT em parceria com a universidade Johns Hopkins. “A restrição evita também o chamado tabagismo passivo. Outro estudo, realizado pelo Instituto do Coração (Incor), comprovou a diminuição da absorção de monóxido de carbono pelas pessoas que trabalham nesses locais”, explica.

Durante o seminário, no próximo dia 26, a especialista para comentará as atividades na área de advocacy que contribuíram para a aprovação da lei. “Inúmeras ações, de maneira conjunta, nos ajudaram a apresentar dados que comprovaram a necessidade de propostas e medidas pelos legisladores. O resultado foi uma melhoria na qualidade da saúde pública e considero uma conquista a nível social”, resume.

 

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